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Aires Augusto do Nascimento

(20/07/1939-)

1. Percurso de Vida

 

Nasceu a 20 de Julho de 1939 na aldeia de Palhais, concelho de Trancoso, distrito da Guarda.  Sentindo a vocação de missionário irá percorrer os vários seminários da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas (3), fundada pelo Papa Pio XI em 1930:  Tomar (1950), Cernache do Bonjardim (1950-1954), Cucujães (1954-57) e Valadares (1962-1963), Tomar (1963-1965).  Em 1962 é ordenado sacerdote.

Em 1966 inicia a sua formação em Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa (FLL), onde virá a ser convidado para assistente (1970).

Em 1972  é convidado  a traduzir o "Livro de Arautos"  (De Ministerio Armorum - Manchester, John Rylands Library, ms 28), sobre  qual fará a sua tese de doutoramento em Filologia Latina Medieval (1978).

Em Lovaina obtém o diploma de 3º. Ciclo de Estudos Medievais (1976) e estuda ciências documentais, em particular codicologia, sob a orientação de Paul Tombeur. Com o apoio da IBM Portugal trabalha no tratamento informático de textos. Foi director do Curso de Ciências Documentais da FLL.

No dia 1 de Fevereiro de 1978, conclui por unanimidade com distinção e louvor a sua tese de doutoramento sobre a tradução do "Livro de Arautos", acompanhada dos respectivos, Índices, concordâncias, análise linguística e quadros estatísticos, tendo sido discutida pelo prof. Manuel Díaz y Díaz da Universidade de Santiago de Compostela. A dissertação foi acompanhada de três trabalhos sobre latim medieval - Vita S. Fructuosi e Vita S. Martini Saurensis, apreciada pelo prof. José Geraldes Freire da Universidade de Coimbra.

Quando está a concluir a sua tese de doutoramento é chamado a colaborar no inventário e estudo dos códices alcobacenses, um desafio que lhe irá permitir aplicar o seu vasto saber na identificação e recuperação da identidade dos scriptorum e livrarias medievais em Portugal.

Em 1985 é nomeado catedrático. A partir de 1986 passa a dirigir a revista Euphrosyne.

Entre 1990 e 1991 exerce as funções de presidente do Instituto Português dos Arquivos. Entre 1994 e 2008 dirige o Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa. Jubilou-se em 2008.

2.  Missão

2.1. Sociedade Missionária da Boa Nova

A ordenação de Aires do Nascimento, em 1962, foi marcada por três acontecimentos fundamentais: o Vaticano II (1962-1965), o início das guerras coloniais (1961) e as profundas mudanças que ocorrem na Sociedade Portuguesa das Missões Católicas, que dá origem à actual Sociedade Missionária da Boa Nova.

Foi na revista Volumus- Revista de Formação Missionária que iniciou a sua produção escrita, fazendo recensões de publicações. Foi na Volumus também que publicou o seu primeiro artigo - "Colégio Universitário de Aspirantes Médicos Missionáriso", que termina com uma significativa citação de Santo Agostinho: "Dai-me magistrados, médicos, oficiais, segundo a lei de Deus e já não terei receio, pois com estes se faz a cidade de Deus" (Volumus, ano XII, 1960, nº2)

Aires do Nascimento está ligado desde inicio (1961) ao grupo de missionários que estão base do novo seminário de Valadares (Gaia).

Integrou também desde o inicio o grupo fundador de "Igreja e Missão - Revista de Cultura e Formação Missionária", cujo primeiro número, da 2ª. série (ano XIII), saiu em 1961.  Trata-se de uma publicação que se empenhou na divulgação das ideias do Vaticano II e de novas correntes da Igreja em Portugal, como o Graal.  Neste número, publica um artigo intitulado - A Igreja no Congo (ex-Belga) - onde dá conta das mudanças que estavam a ocorrer em África. Sobre questões internacionais irá ainda centrar a sua atenção sobre as profundas desigualdades existentes na América Latina (nº16, Jul./Set.1964).

Nas páginas desta revista chama a atenção para novos pensadores cristãos, como Oscar Cullmann (1902-1999)(nº15, Jul./Set.1964) ou Yves Congar (1904-1995) (n.19, Jul./Set.1965).

É desde inicio um empenhado defensor das ideias renovadoras do Vaticano II (nº11, 1963), defendendo uma visão da igreja plural (nº.9, 1963), personalista, pautada pelo respeito dos Direitos Humanos (Nº20, Out./Dez.1965) e ecuménica (n.19, Jul./Set.1965)

Assumiu um papel muito ativo na organização e divulgação das ideias em debate na "Semanas Nacionais de Estudos Missionário" (1). Nas páginas que escreve na revista Igreja e Missão, não se limita a ser um simples divulgador, toma posição sobre a organização, profundidade das abordagens, etc., com grande liberdade crítica ( nº12, 1963; nº23, 1966; nº27,1967; Nº. 38,1969).

Entre 1964 (n.13/14, Jan./Jun.) e 1969 (nº31, Set./Out) integra o Conselho de Redação da revista Igreja e Missão. Em 1970 passa a ser assistente na Faculdade de Letras de Lisboa, o que o obrigou a outras exigências.

Lendo relatos dos seus companheiros percebe-se que terá realizado também um importante trabalho na tradução de documentos fundamentais da Igreja católica, como a epistola solene “Suavi Sane” de PIO XI (24/10/1932), diploma fundacional da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas.

Ao longo dos anos tem continuado a reflectir sobre a doutrina católica, traduzido textos doutrinais fundacionais, mas também divulgado textos sobre as missões, a obra e figuras da Sociedade Missionária Portuguesa, de que são exemplo:

- Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, Tradução. Instituto Biblico Pontífico de Roma. Edições Paulistas. 1985

- O livro de teologia: génese de uma estrutura e estruturação de uma ciência, Didaskalia. 25 (1995) 235- 255.

-  Dizer a Bíblia em português. fragmentos de uma história incompleta. Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Lisboa, 2013.

- Edito de Milão. Apostilas para uma Tradução. Lisboa, UCP. 2013

- A Igreja na história da cultura. (2000) - In: Igreja e missão vol. 184 (2000) p. 139-201

- Valadares - Seminário das Missões da Boa Nova. Apontamentos de lembranças dos primeiros tempos do Seminário de Valadares, com a colaboração do P.e André Marcos, José Quina, Marinho Borges e Joaquim Alves Pereira. 2011

- D. José dos Santos Garcia. 1º bispo da Sociedade Missionária Portuguesa, 1º bispo de Porto Amélia-Pemba (Moçambique) : 1957-1975 : testemunho e memória. Lisboa. 2011.

3. Professor

A formação em filologia clássica, mas sobretudo depois de se torna professor nesta área na Faculdade de Letras (1970), marca uma mudança na sua vida. À missão de pregar a palavra de Deus, juntou a missão de procura e difusão do saber, próprias de um verdadeiro professor. As exigências académicas tornam-se num poderoso estimulo para uma produção regular em estudos clássicos, que lhe permitem um amplo domínio do latim e da cultura clássica.

Foi decisivo neste capítulo,  a convivência a partir de 1972 com o professor Manuel Cecilio Díaz y Díaz (1924-2008) da Universidade de Santiago de Compostela, que o levaram a trabalhar sobre obras fundamentais da cultura medieval portuguesa.

Como professor universitário, na verdadeira acepção do termo, cultivou multiplas relações nacionais e internacionais, que se consubstanciaram em convites que recebeu para cursos, conferências, projectos ou participação em associações e academias em países como a França, Espanha, Itália, Bélgica, Grã-Bretanha ou o Brasil.

3. 1. Reflexões sobre a Universidade

Aires do Nascimento não se limitou a exercer a ser um professor universitário, historiou e reflectiu sobre a própria universidade nos nossos dias.

Tem igualmente escrito páginas de testemunho e reflexão sobre o percurso de vida e a obra de personalidades como Luís de Sousa Rebelo (1922-2010), Manuel C. Díaz y Díaz (1924-2008), Mário de Albuquerque (1898-1975), José Geraldes Freire (1928-2017), Horacio Santiago ´-Otero (1928-1997), Maria Helena Mira Mateus (1931), J. Pais da Silva (1929-1977), Martim de Albuquerque (1936), Fernando de Mello Moser (1927-1984), Américo Costa Ramalho (1921-2013), Avelino de Jesus da Costa ((1908-2000), Giuseppe Tavani (1924), Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017), Maria Leonor Carvalhão Buescu (1932-1999), António A. Marques de Almeida (1936-2017), Padre Manuel Antunes (1918-1985), Maria Helena de Paiva Correia, Mário (Gonçalves) Martins (1908-1990), José da Cruz Policarpo (1936-2014), Victor Jabouille (1947), José Pedro Machado (1914-2005), Carmen Codoñer Merino (1936), Manuel José do Carmo Ferreira (1943), José V. de Pina Martins (1920-2010), João de Almeida Flor (1943), Serafin Moralejo (1946-2011), Amadeu Rodrigues Torres (1924-2012), Fernando Alves Cristovão (1929), António Fontán (1923 -2010), Arnaldo Monteiro Espírito Santo, Leonel Ribeiro dos Santos (1947), Luís Crespo Fabião (1925-2001), Vitalino Valcárcel Martinez, João Barrento (1940), Maria de Lurdes Flor de Oliveira.

A ler:

- A Faculdade de Letras de Lisboa: em busca do sentido do Tempo, para que a memória seja projecto, Revista de Universidade de Lisbioa, 2, nº5, Abril de 1988, 6-11

- Universidade e Investigação: as dificuldades de uma integração ou a má consciência de um estatuto, in, A Faculdade de Letras em debate - Assembleia Magna de Docentes, Março de 1999....

- University in a new line of scientific policy, NewsLetter 2000 Compostella, nº6, 2000, 13-15

- "Nostra studia, sapientiae via": a voz fundadora do rei D. Pedro V, no 150º.aniversário da fundação do Curso Superior de Letras de Lisboa, EUPHROSYNE, 38, 2010, 401-438.

- O estudo de Letras, caminho para a sabedoria: evocação d0 150º. aniversário da fundação do Curso Superior de Letras de Lisboa por D. Pedro V: comunicação à Academia das Ciências de Lisboa, em 2010.

4. Estudos Clássicos

A conclusão da sua licenciatura em filologia clássica, em 1970, com a dissertação - "Aretê Sofística - O Homem Grego do Século V a.C, em valoração"- foi saudada na revista EUPHROSYNE (Nova Série, Vol. IV, p.268). A forma surpreendente e profunda como reinterpreta o conceito grego Artê (virtude), deixava supor que iria enveredar pela filosofia (2).

Foi um início auspicioso. Os estudos sobre a lingua e a cultura grega, nunca abandonados, não tardam todavia a serem secundarizados face à lingua e cultura latina.

A ler de Aires do Nascimento sobre a cultura grega:

- O significado de Agxdos na Antígona de Sófocles, EUPHROSYNE, nº.6, 1973-1974;

- Sófocles, em centenário: o peso do tempo, o tributo da leitura, in, Sófocles - XXV centenário do nascimento (Actas de Colóquio), coord., Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, 2005, 7-14.

4.1. Latim Clássico

A partir de 1972, o domínio do latim e da cultura latina passam a ser objeto de um estudo sistemático. Reflete sobre o ensino do latim clássico, mas também produz importantes instrumentos para a sua leitura e tradução. Autores como Plínio, Ovídio, Virgilio, Propercio, Osório ou Terêncio são objecto de vários trabalhos.

A ler de Aires do Nascimento:

- Colóquio sobre o ensino do latim: actas / Departamento de estudos clássicos, Faculdade de letras, Lisboa ; [introd. Aires Augusto Nascimento] / Lisboa : Ministério da educação, Instituto de cultura e língua portuguesa , 1987

- Varia Proberbia, EUPHROSYNE, Nº 10, 1980

- Comentario a las Bucolicas de Virgilio / Nicolas Trivet Anglico ; estudio y edición crítica por Aires Augusto Nascimento y José Manuel Diaz de Bustamante / [Santiago de Compostela] :Universidad de Santiago de Compostela , 1984

- Concordantiarum discordantia: em busca de padrões comuns para concordancias lexicais / Aires A. Nascimento / Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda , 1993

- N. Trevet, comentador das "Bucólicas" de Virgílio: confirmaçao de autoria / Aires A. Nascimento / Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda , 1993

- Egéria. Viagem do Ocidente à Terra Santa, no séc.IV , com

- De Augusto a Adriano: actas de Colóquio de literatura latina, Lisboa, 2000 Novembro 29-30 / coordenação editorial de Aires A. Nascimento / Lisboa : Euphrosyne , 2002

-  Os clássicos no tempo : Plínio, o Velho, e o Humanismo Português : colóquio internacional, Lisboa, 2006, Março, 31 / coordenação Aires A. Nascimento / Lisboa : Centro de Estudos Classicos , 2007

- Ovídio: exílio e poesia : leituras ovidianas no bimilenário da "relegatio" : colóquio internacional, Lisboa, 2007, Junho, 21 / coordenação Aires A. Nascimento e Maria Cristina C. M. S. Pimentel / Lisboa : Centro de estudos clássicos , impr. 2008

- Antiguidade Clássica: que fazer com este património? 2003, maio 8 - 10 / Colóquio à Memória de Victor Jabouille . - Lisboa (2004)

- Para um "Corpus Codicum Graecorum Hispanorum": uma pequena colecçao olissiponense. (2008) - In: Euphrosyne vol. 36 (2008) p. 349-365

O estudo da literatura greco-romana permite-lhe, como a muito poucos, identificar as raízes e influências da mesma ao longo de toda a Idade Média e Moderna em Portugal.

5. Medievalista

A preparação da sua tese de doutoramento, por indicação de Manuel C. Diaz y Diaz acabou por centrar-se sobre o Livro de Arautos (século XV), o que implicou não apenas um aturado estudo do latim medieval, mas igualmente em codicologia, paleografia, análise estatística de textos e bibliotecas medievais. Um novo campo se abria que irá ser percorrido de forma sistemática ao longo dos anos.

5.1 Médio-Latim e Português Medieval

O estudo das obras escritas em latim medieval, em particular por autores que haviam vivido ou nascido no território que hoje constitui Portugal, estava deficientemente tratada entre nós. Havia que resgatar autores, obras, traduzi-las, estudá-las. Sem este trabalho de fundo, os estudos de latim em Portugal ficariam limitados aos autores clássicos. Ao longo dos anos irá recuperar e identificar muitas tipologias de textos latinos medievais pouco documentados, mas que foram a base para a literatura vernácula: literatura diplomática, liturgia, hagiografias, livros de milagres...

Em vários textos faz o retrato desta situação, tais como:

- Filologia Médio-Latina em Portugal, EUPHROSYNE, Nova Série, Vol. XIII, 1985

- Os Estudos Clássicos na Faculdade de Letras de Lisboa (no 75ª. Aniversário da Restauração da Universidade), EUPHROSYNE, Nova Série, Vol. XV, 1987.

Fruto deste projeto de redescoberta, sobretudo a  partir de 1977 publicará um impressionante conjunto de estudos e traduções de textos medievais, com uma relação direta a Portugal e à formação da lingua portuguesa.

A ler de Aires do Nascimento sobre esta temática:

- Alguns vocábulos portugueses num manuscrito latino do séc. XV, Portugaliae historica, I (1973), p. 275, n. 6.

- La sémantique de la répétition dans le document le plus ancien du territoire portugais (a. D. 882)EUPHROSYNE, nº8, 1977

 

- Para a pronúncia do latim. Um texto gramatical dos códices alcobacenses. B. N. L. Alcob. CCCXC1V/426, f. 258 v." «Clássica».... 1977

 

- Da poesia rítmica latino-medieval e das suas sobrevivências no Fundo Alcobacense
Evphrosyne: Revista de filología clássica, Nº 10, 1980, págs. 173-183
 

- Lexicografía del latín medieval: el futuro Carmen Codoñer Merino, Louis Holtz, Aires Augusto Nascimento, Maurilio Pérez González; José Manuel Díaz de Bustamante (coord.), José Martínez Gázquez (coord.)

 

- As ‘Reglas pera enformarmos os menynos en latin’”, Euphrosyne, 17, 1989, 209-232

 

- Filologia Médio-Latina em Portugal: situação e perspectiva. Evphrosyne: Revista de filologia clássica, Nº 13, 1985, págs. 111-138

 

- Um fragmento de Differentiae uerborum em letra carolina», Euphrosyne, 32 (2004), 265-282

 

- Traduzir, verbo medieval: as liçôes de bruni aretino e Alonso de Cartagena.(1999) - In: Actas del II Congreso Hispánico de Latín Medieval Pt. 1 p. 133-156
 

- Filología latina medieval: entre leituras e transmissão de texto. (1998) - In: Filologia classica e filologia romanza. Esperienze ecdotiche a confronto p. 79-90
 

- Literatura Medieval. Actas do IV Congresso da Associação hispânica de Literatura Medieval (Lisbonne 1-5 octobre 1991), com Almeida Ribeiro, Cristina [Publ.]. - Lisbonne (1993)

 

- Literatura medieval, 2 , com Ribeiro, Cristina Almeida [Publ.]. - Lisboa (1993)

 

- La biographie latine au XIIème siècle au Portugal.(2002) - In: FS Walter Berschin p. 79-88


- Lexicalização e dicionarização, dois momentos do trabalho filológico: reflexões a partir da documentação portuguesa medieval, in, Origines de las lenguas romances en el reino de León - siglos IX-XII, León, Centro de Estudios e Investigación San Isidoro, II, 2004, 297-314.

 

- Novos fragmentos de textos portugueses medievais descobertos na Torre do Tombo:
horizontes de uma cultura integrada, in Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº2, | 2005: 7-24

 

-“Nova idade, nova linguagem: entre afecto e alto desempenho de funções, a palavra no séc. XV português”, in Humanismo para o nosso tempo – Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, ed. Aires A. Nascimento et alii, Lisboa, 2004, pp. 33-57.

 

- O corpus documental do latim medieval do reino de Portugal, in, Actas do IV Congresso Internacional do Latim Medieval Hispânico (Lisboa, 12-15 de Outubro de 2005), coord. Aires A. Nascimento e Paulo F. Alberto, Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, 2006, 982-990.

 

- O latim medieval entre a escola e a vida: níveis de escrita e de leitura”, in Actas do IV Congresso Internacional do Latim Medieval Hispânico (Lisboa, 12-15 de Outubro de 2005), coordenação de Aires A. Nascimento e Paulo F. Alberto, Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, 2006, pp. 3-20

 

6. Humanismo e Humanistas

 

O estudo do latim medieval permitiu-lhe compreender de forma surpreendente a cultura humanista. Os nosssos humanistas não romperam com o passado medieval, integraram-no. Nesse sentido, preferiam expressar-se frequentemente num latim de base medieval do que no latim clássico.

 

Tem dedicado particular atenção ao estudo dos textos que os nossos humanistas traduziram, como os traduziram e a significação que lhes atribuiram.

 

- Cultura clássica em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1980.

 

- A primeira tradução portuguesa da Eneida (Lisboa, BN, cod. 3322), Revista da Biblioteca Nacional, 1, 1981, nº2, 199-222.

 

- Traduções portuguesas de Virgílio, Clássica, 8, 1982. 84-112.

 

- La réception des auteurs classiques dans l'espace culturel portugais: une question ouverte. (1995) - In: The Classical Tradition in the Middle Ages and the Renaissance p. 47-56

- Le latin à l'époque de l'Humanisme au Portugal: données de situation et suggestions pour une étude d'ensemble. (2004) - In: Il latino nell'età dell'Umanesimo p. 97-108

- Os textos clássicos em período medieval: tradução como alargamento de comunidade textual, em Raízes greco-latinas da cultura portuguesa – Actas do I Congresso da APEC, Coimbra, 1999, 41-70. Segundo João de SALISBÚRIA, «rex illiteratus quasi asinus coronatus» (Policraticus, IV, 6).

- Pedro Nunes e Damião de Góis: dois rostos do Humanismo português : actas de colóquio, no V Centenário do Nascimento, 2002 - 28 de junho, Faculdade de letras de Lisboa, Centro de estudos Clássicos / coordenação, Aires A. Nascimento / Lisboa : Guimarães , DL 2002

- Damião de Góis, tradutor: perspectivas para uma integração cultural, in, Damião de Góis na Europa do Renascimento -Actas de Congresso Internacional, Braga, Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, 2003, 233-265.

- Le latin à l'époque de l'Humanisme au Portugal: données de situation et suggestions pour une étude d'ensemble. (2004) - In: Il latino nell'età dell'Umanesimo p. 97-108

Aires do Nascimento destacou alguns mitos, memórias ou invenções, usados nomeadamente para nobilitarem Lisboa, ligando a sua fundação a heróis da antiguidade clássica.

- Ulixbona ab Idis seu Uklisse condita, in, Actas del IX Congreso Internacional de la Asociación Hispânica de Literatura Medieval (A Coruña, 18-22 Septiembro de 2001)...

- Ulisses em Lisboa: mito e memória, in, Memórias da Academia das Ciências de Lisboa - Classe de Letras, tomo XXXVII, 2006, 1995-224

- Nimina, Numina: a invenção de Ulisses, a Ocidente, in, .... Salamanca, Ediciones Universidad, 2007, 655-664.

- Centro e periferia: nos errores de Ulisses em busca da identidade, in, ....Horn/Wien, 2007, 168-183.

- Os epónimos míticos de Lisboa: Ulisses, Hércules e outros - titulos de nobilitação, in, Presença de Victor Jabouille, Faculdade de Letras de Lisboa, 2003. 31-53

- Do Mediterrâneo ao Atlântico: os errores de Ulisses até Olisipona, no Ocidente....

7. Publicações de Cultura Clássica

Para além da publicação regular de artigos nas mais variadas revistas, Aires do Nascimento assumiu a direção de duas publicações sobre cultura clássica: Clássica e Euphrosyne.

- Clássica- Boletim de Pedagogia das Línguas Clássicas. Entre 1980 e 1986 dirigiu estas importante publicação do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa.

- Euphrosyne. A revista foi fundada em 1957 por F. Rebelo Gonçalves. Aires do Nascimento integra a partir de 1970 o seu Conselho de Redação. Publica em 1972 o seu primeiro artigo, quando Maria Helena de Teves Costa Ureña Prieto assume a direção. Ao longo dos anos publica regularmente centenas de textos (artigos, recensões críticas, notas). Em 1986 (EUPHROSYNE, Nova Série, Vol. XV, 1987) assume a direção da revista, mantendo-se como diretor até 2009.

 

8. Tradução e Reflexão sobre a Tradução

Aires do Nascimento ao longo dos anos tem dado a conhecer uma impressionante número de obras, que sem as suas traduções teriam ficado no esquecimento. Entre os prestigiados prémios que recebeu, destacam-se o Prémio de Tradução pela União Latina (2007) e o Prémio de Tradução do Pen Clube Português (2007), ambos pela Thomas Morus, Utopia, edição crítica, tradução e cometário, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Uma tradução que começa por um convite de Mário Martins.

Não se limita a traduzir, tem escrito a história da tradução de textos clássicos e medievais em Portugal, e realizado uma permanente reflexão sobre a própria tradução e os seus problemas.

Como leitor atento e conhecedor nas suas áreas de especialidade, tem produzido centenas de recensões críticas.

A ler de Aires do Nascimento:

- O Santo Evangelho (revisão crítica de tradução), Lisboa.1973.

- O onomástico de Terêncio na tradução de Leonel da Costa», Euphrosyne, 7, 1975-76, 103-123.

- Jerónimo, Carta a Pamáquio - Sobre a Tradução (Ep.57), Lisboa. Ed. Cosmos, 1995.

- Traduzir, verbo de fronteira nos contornos da Idade Média, in, O género do texto medieval, Lisboa.1997, 111-138.

- Os textos clássicos em período medieval: tradução como alargamento de comunidade textual, in, Raízes greco-latinas da cultura portuguesa - Actas do I Congresso da APEC, Coimbra, 1999, 41-70.

- A Vita Christi de Ludolfo de Saxónia, em português: percursos da tradução e seu presumível responsável”, Euphrosyne, 29, 2001, 125-142.

- O estatuto do tradutor: de mediador cultural a interprete do texto (condições históricas com reflexões de permeio), in, A Profissionalização do Tradutor - VI Seminário de Tradução científica em língua portuguesa (Lisboa, 10 e 11 de Novembro de 2003), Lisboa, FCT/União Latina. 2004, 131-142.

- Dizer a Bíblia em português: fragmentos de uma história incompleta, Revista Lusófona de Ciências das Religiões - A Biblia e suas Edições em Lingua Portuguesa, Lisboa, Ed. Universitárias Lusófonas/Sociedade Bíblica, 2010-7-58.

9. Tratamento Informático de Textos

No ambito da sua tese de doutoramento, em Outubro de 1976, visitou o CETEDEC - Centre de Traitement Electronique des Documents, fundado em 1968, na Universidade de Lovaina (Bégica), por Paul Tombeur, discipulo do medievalista Maurice Hélin. Esta visita permite perceber a importância da estatística para o estudo sistemático dos textos e identificação das suas particularidades medievais. Trata-se de uma área que foi pioneiro em Portugal.

A ler de Aires do Nascimento:

- "Cetedec - A Informática ao Serviço da Filologia Latina, EUPHROSYNE, Vol. VIII, 1977

- Tratamento de textos em computador - Uma via em aberto», Classica, 1, 1977

- Tratamento de textos em computador - Lematização», Classica, 2, 1977

- Tratamento de textos em computador - Análise linguística», Classica, 3, 1978

- Tratamento de textos em computador - Concordâncias verbais», Classica, 4, 1979

 

- Identificação automática de elementos básicos da frase latina: o Projecto OLISSIPO
Alberto, Paolo Farmhouse, Pena, Abel N, Nascimento, Aires Augusto. (2003) - In: Euphrosyne Ser. NS, vol. 31 (2003) p. 515-518

 

10. Codicologia

 

O contacto com Manuel Diaz y Diaz, mas também com os trabalhos de codicologia em Lovaina tiveram uma influência decisiva em Aires do Nascimento na abordagem ao estudo dos manuscritos. A materialidade dos códices (suportes, pigmentos, letras, cadernos, encadernação), história (modos de produção, circulação, evolução) e cultura passa a ser estudada de uma forma como nunca o havia sido em Portugal.

Fruto dos seus contactos internacionais, permitiram a realização de um "Curso Intensivo de Codicologia e Iluminura", entre 17 e 28 de Março de 1980, promovido pelo Departamento de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa. A codicologia foi orientada por León Gilissen (maître de Conferences da Univ. de Liége e conservador de manuscritos da Biblioteca Real Albert I de Bruxelas) e a iluminura por Antoine de Shryver da Universidade de Gand. O curso realizado em Lisboa foi organizado ao abrigo do acordo Luso-Belga para 1980. Abria-se desta forma dois novos campos de investigação - a codicologia e a iluminura - cujos resultados temos vindo a acompanhar nestas páginas.

Este trabalho pioneiro que criou escola, permitiram-lhe recuperar a identidade dos scriptorium de Portugal. Com base no estudo das encadernações alcobacenses, demonstrou que o Mosteiro de Alcobaça foi o local de origem da cópia da maioria dos códices que chegaram até nós.

A ler de Aires do Nascimento:

- Marginalidade e integração: o projecto codicológico como indício da recepção do texto .(1988) - In: Actas del I Congreso Internacional de la Asociación Hispánica de Literatura Medieval p. 485-491

 

- Encadernação medieval portuguesa, com António Dias Diogo, Lisboa, Imprensa Nacional,  - Casa da Moeda, 1984.

 

- Práticas codicológicas e sentido de enquadramento do livro manuscrito como produto cultural. In Colóquio sobre o livro antigo. V Centenário do livro impresso em Portugal: 1487-1987. Actas. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1992, p. 233-242.

 

- A "mise en page", base operativa de reflexão codicológica: dados e problemas de fundos medievais portugueses, Actas del VII coloquio del comité internacional de paleografia latina, 1990, 

 

- “La reliure médiévale: une forme de relation avec le livre. Fonctionnalité et sens des différences”, Bolletino dell’Istituto Centrale per la Patologia del Libro 44-45, 1990-1991 [1994], 263-294 (Actas do Congresso Internacional “La Legatura dei Libri antichi tra conoscenza, valorizazione e tutela”, Parma, 1993).

 

- La fabrication du papyrus: une expérience pédagogique et quelques précisions techniques .(1988) - In: Euphrosyne Ser. NS, vol. 16 (1988) p. 323-326

 

- Novos Tempos, novos suportes de informação e leitura: ruptura e continuidades. Academia Portuguesa da História. Lisboa. 2004

 

- Terminologie du livre dans les sources documentaires portugaises médiévales: fragments d'un discours incomplet . (1999) - In: Le vocabulaire des écoles des Mendiants au Moyen Âge p. 119-138

 

- O «scriptorium» medieval, instituição matriz do livro ocidental. In Catálogo da exposição A iluminura em Portugal: identidade e influências. Coord. M. A. Miranda. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1999, p. 53-109.

 

10. 1. Iluminura

 

O primeiro texto onde aborda especificamente a questão da iluminura, como área da História da Arte, é para fazer uma recensão crítica ao artigo de Maria Adelaide Miranda - A Inicial ornada nos maniuscritos Alcobacenses (Ler História, 8, 1986, 3-33) (4), na revista Scriptorium - Reveu International des Études Relatives aux Manuscripts, XLIII, 1989, vol.1, entrada 457 do Bulletim Codicologique. Assinala dois aspectos que este tipo de análises da iluminura, centradas na autonomia da imagem, podem cair: generalizações abusivas, devido à separação da imagem do texto, potenciando que os textos sejam esquecidos neste processo (autores, circulação de cópias, etc). Os estudos sobre iluminura em Portugal, que desde os anos 80 do século XX, tem registado um forte incremento, têm contado sempre com a participação de Aires dos Nascimento no seu desenvolvimento. Um dos pontos altos desta intervenção e colaboração foi a exposição e o catálogo - A Iluminura em Portugal: Identidades e Influências de 26/4 a 30/6 de 1999, na B.N. de Lisboa, que parece também ter produzido uma mudança na importância que conferiu à iluminura e à imagem.

- A Iluminura, um traço distintivo, in, A Torre do Tombo na Viragem do século. Catálogo de Exposição, Lisboa. ANTT, 2000, 29-33.

- Pictura tacitum poema: texto e imagen no livro medieval. Actas [del] III Congreso Hispánico de Latín Medieval : (León, 26-29 de spetiembre de 2001), Vol. 1, 2002,  págs. 31-52

- A imagem no texto: esplendor do livro e marcação de leitura no manuscrito medieval . (2006) - In: Homenagem Jorge H. Pais da Silva p. 79-113

- A Imagem no texto: esplendor do livro e marcação de leitura no manuscrito medieval, in, Arte, História e Arqueologia: O Pretérito (sempre) presente, ..., 2006, 79-113.

- “La couleur et l’image dans la couvrure de la reliure médié- vale: quelques données des sources portugaises”, Actes, Paris IRHT / CNRS, 2007, pp. 359 -367.

- O poder da imagem: encantos, ambiguidades e valorizações, in, Revista de História de Arte, 7, 2009, 17-41.

- O cromatismo do texto, in, Actas do VII Colóquio da Secção Portuguesa da AHLM - As Cores, ....Lisboa, Universidade Aberta, 2011, 13-37.

 

 

 

Continuação

 

Carlos Fontes

  Notas:

(1)  Vicente, Ana Cláudia - As Semanas Nacionais de Estudos Missionários 1962-1978, Lusitânia Sacra, 2ª. Série, 19-20 (2007-2008), pp.307-328

(2) Uma versão do essencial da dissertação de licenciatura é publicada dois anos depois: "Aretê Sofística, uma forma do Humanismo Grego". Foi também o seu primeiro artigo na EUPHROSYNE. Revista da Faculdade de Filologia Clássica , Lisboa. Centro de Estudos Clássicos - Faculdade de Letras de Lisboa. Nº 5, 1972;

(3) A Sociedade Portuguesa das Missões Católicas, deu origem à atual Sociedade Missionária da Boa Nova. Em 2014 tinha 106 membros que trabalhavam em Portugal, Moçambique (desde 1937), Angola (desde 1970), Brasil (desde 1970) Zambia (desde 1980) e Japão (desde 1998). 

(4) O artigo de Maria Adelaide Miranda é uma sintese da sua Tese de Mestrado em História de Arte, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que foi arguente Carlos Alberto Ferreira de Almeida. A tese de doutoramento da autora, também centrada na iluminura dos códices de Alcobaça Aires Augusto do Nascimento foi o arguente.

 

 

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Carlos Fontes

Responsável e autor da rede Filorbis 

 

 

Interesses:

Filosofia, Comunicação, Cultura, Educação e Formação Profissional.

Formação Académica

Licenciado em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação no ISCTE (Lisboa).

Currículo Profissional

 

Professor do Ensino Secundário em Portugal. 

Foi dirigente no Instituto de Emprego e Formação profissional (IEFP) e no Ministério da Cultura.

Dirigiu e editou diversas publicações.

 

     
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